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"...é sempre melhor, no entanto, ser um tolo na moda do que um tolo fora de moda". Immanuel Kant

sábado, 12 de abril de 2014

Sábias palavras

Nunca fui muito preocupada com esta questão de me produzir demais, de pensar demais para me vestir. Acho isto um suplício diário da condição feminina. Sou eminentemente básica, o que facilita bastante o processo. Praticamente não uso estampas e peças com muita informação de moda, isto é, de tendências. Gosto da frase de Chanel que dizia que “Elegance is refusal”.
Refusal of what, anyway?
A Moda veio na contramão da Tradição, e afirma que o novo é sempre melhor. Faz acreditarmos que o casaco da estação passada tem alguma coisa que o denuncia que é passado, ultrapassado.
Por que não pensar um pouco mais e entender as palavras de mademoiselle como uma ode à elegância, ou melhor, ao bom senso? Entender que gostar de se vestir bem nada tem a ver com adição aos modismos ou ao consumismo desenfreado.
Recusar-se a comprar o que nos é dito como itens "must-have". Estar elegante - por extensão estar bem - não é estar em conformidade com os ditames alheios; especialmente quando o objetivo principal é vender algo, e não ajudá-lo a ser mais elegante, mais atraente, ou mais seguro.
Recusar-se a aceitar o senso comum de que você sempre precisa de roupas novas, não importando que você já tenha peças suficientes, ou que você não precise (ou possa) gastar mais dinheiro. Ou que o meio ambiente já esteja nos seus limites devido ao consumo irrestrito, irresponsável e sem planejamento.
Recusar-se a ser mais uma vítima da "cor do ano", ou daquela afirmação de que a cor X é o novo preto, por exemplo.  Ou, então, se recusar a acreditar que você tem que ter um arco-íris inteiro em seu guarda-roupa para não ser monótono ou chato.
Recusar-se, enfim, a engolir o que é dito por um exército de “experts” (cujas opiniões muitas vezes divergem) e entender que a Moda se desenvolveu de forma mais consistente em países que dão valor à cultura. E, tal qual expressão de cultura, a expressão de nossa identidade deve vir de uma construção de dados e informações que formarão nosso conhecimento que, então, poderá se transformar em algo interessante.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ser, ter, parecer ter e aparecer

Quando vejo uma bolsa de uma marca famosa, dessas que hoje parecem trazer significados ao seu dono, cheias de logomarcas e identificações, fico a pensar: por que ser tão evidente? Por que ser tão escancaradamente ostentatória?

Se vejo uma pessoa descendo de um ônibus com esta bolsa, o primeiro pensamento que passa pela cabeça é: certamente é fake! Já se sai uma pessoa de um carrão, o pensamento é justamente o oposto: certamente é original!

Por quê? Não é um preconceito?

Certamente, mas onde estaria o luxo e a exclusividade que este objeto deveria significar, se ele suscita tantas dúvidas? Onde está o reconhecimento dos significados, dos códigos que ele deveria possuir? O luxo é tão popular, tão cheio de mensagens estranhas?

“Como alguém pode achar que é um luxo ter a mesma bolsa que outras três pessoas e ainda precisar entrar em lista de espera para conseguir uma?” Este questionamento da inglesa Anya Hindmarch caiu como uma luva nos meus pensamentos e faz me lembrar de como o consumo ostentatório parece cada vez mais mover aqueles que precisam (mais do que a maioria?) da aprovação alheia e da afirmação do seu poder aquisitivo e de seu status.

Este mentalidade foi resultado de um caminho que foi sendo sedimentado pelas mudanças de perfil das bases de distinção e notoriedade. Antes, as pessoas se distinguiam através do ser: do que eram e do que significavam dentro da sociedade. O respeito e a autoestima eram obtidos pela valorização do ser. Com o passar do tempo, as pessoas começaram a se destacar pelo que tinham - seus bens. Os valores materiais passaram a ditar a importância do sujeito e a vaidade se voltou para o ter e, desta forma, o ser começou a minguar.

O externo suplantou o interno e o conteúdo deixou de ter tanta importância.

Ainda neste percurso, parecer ter também foi um passo adiante e aqueles que não tinham, por exemplo, poderiam até se endividar a fim de conquistar seus troféus, isto é, itens de consumo que “revelassem” sua riqueza e status social.

Percorrendo este trajeto de modificação do perfil e da mentalidade das pessoas, desembocamos numa época em que aparecer, mais do que parecer ser, parece ser a regra. As pessoas tornam-se escravas de suas imagens e de sua aparência, evidenciando um vazio e uma superficialidade que faz de todos um grande blefe.


Blefes que carregam bolsas cheias de logos e vazias de conteúdo.




quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Um luxo só!

Tem muitas coisas que me fazem refletir e determinados comportamentos, em especial, me parecem sem sentido. Quem eventualmente lê este blog, já deve ter percebido que a despeito de trabalhar com Moda, não gosto de modismos e de tendências de moda. Já as tendências de comportamento fazem parte do Zeitgeist e não há como dizer que não faço parte do mundo contemporâneo. Seria pretensão ou alguma patologia.

Consumir, todos consumimos, da água até a calça jeans. Vivemos em sociedade e, além de sobrevivermos, temos compromissos sociais que nos incluem ou destacam de determinados grupos.  É assim que a banda toca. O consumismo, no entanto, bem como os rumos que os significados da aquisição de determinados bens têm tomado, é que chegam a me estarrecer.

De uns tempos para cá, o mercado de luxo tem atingido alvos antes inesperados e as classes populares têm buscado marcas de griffes famosas que antes eram restritas às classes altas, com poder econômico mais “adequado” a estes produtos.

O luxo, tradicionalmente tratava da distinção e do status, mas com a entrada de novos “players” nesta arena, os significados foram se reinventando para que o luxo continuasse a exercer seu poder e fascínio. A relação que estes produtos têm com o prazer, a impulsividade e a compensação acabam encontrando e alimentando um quinhão da sociedade que se preocupa cada vez mais com a imagem e a aparência pessoal.

É interessante, pois, quando se pensa que o luxo estaria ameaçado por este cenário, ele simplesmente se reinventa. A distinção e o status passam a dividir espaço com o hedonismo e a autogratificação. Desta forma, as motivações que conduzem aos produtos de luxo deixam de ser somente as definidoras do status. O luxo agora também traduz o prazer e o narcisismo.

Este fenômeno reflete a ascensão social da classe C que antes só consumia o necessário ou possível. Com esta nova forma de consumo, abandona-se o primado da lógica de classes, fazendo com que as marcas luxo revejam as estratégias de distinção de classes como forma de reserva e diferenciação de mercado.

É claro que o entendimento do que é luxo é muito particular e individual. Na complexidade da atual sociedade de consumo, é muito difícil identificar o que diferencia uma necessidade real de uma social: o que hoje é necessidade pode ter sido um luxo no passado. Mas certos significados poderiam ser repensados, já que ideias próprias são de fato um luxo. Mas na era da “sua opinião é muito importante para nós” (contanto que você ligue e pague uma taxa para expressá-la), todos parecem ter muitas opiniões e ideias formadas sobre tudo. Opiniões e ideias que, no entanto, não foram construídas através de reflexões ou de qualquer outra introspecção.

Afinal, ideias realmente próprias, construídas através de reflexão, são de fato um luxo.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Cultura e artesanato



Quando se menciona o artesanato, percebo que não há um entendimento único do que se trata. Na língua portuguesa, quase sempre o artesanal toma a direção de algo sem muita sofisticação, algo rústico. Pode ser entendido como algo feito através de meios tradicionais, mas logo a seguir, vêm definições que o apresentam como algo feito através de meios rudimentares, às vezes sem qualquer método.

Em outras culturas, no entanto, esta noção depreciativa não aparece, e quando tento verter a palavra artesanato, tenho algumas dificuldades. A palavra craft, por exemplo, significa fazer (algo) de maneira habilidosa ou uma atividade que envolve a habilidade de executar algo manualmente. Traduzir não é colocar simplesmente no Google Translate, tem que se compreender a cultura e o contexto. 

No Brasil, devido ao passado escravagista e de grande diferenciação de classes, o fazer manual sempre teve pouca valorização. O trabalho intelectual sempre prevaleceu e o artesanato, atividade que tradicionalmente vinha das camadas subalternas, desempenhou um papel irrelevante para a construção da cultura nacional. Além disso, os artesãos geralmente dividem seu tempo entre diferentes atividades, eles mesmos entendendo a prática do artesanato como um bico.

Em países onde o artesanato é reconhecido e valorizado, as técnicas são aprendidas em escolas e universidades. O artesão vê neste ofício um meio de expressão que, por vezes, aproxima-o da arte. Busca-se a valorização através de séries limitadas e os preços dos artefatos são altos, aproximando-se de preços de obras de arte. Ofícios como a carpintaria, marcenaria, cantaria, cestaria, tecelagem, bordado e outros requerem treinamento extenso e estágios como aprendiz para obter altos níveis de habilidade. 

No Brasil, seguindo a mentalidade da diferenciação/depreciação do manual x intelectual, a educação formal privilegia o que é do campo intelectual. Praticamente não há escolas de formação de ofícios e as tradições de raiz, no interior do país, tendem a desaparecer pelo desinteresse dos mais jovens em aprender e seguir mantendo as tradições. Num país sem memória nem tradição, o que nos restará serão bordados do Mickey e seus companheiros.

Projeto em Araçuai,  no Vale do Jequitinhonha (MG), resgata técnicas da tecelagem manual, um ofício de artesãs que está ficando esquecido pelo avanço das técnicas de produção de tecidos e vestuários