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"...é sempre melhor, no entanto, ser um tolo na moda do que um tolo fora de moda". Immanuel Kant

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Tudo tem seu preço

Acabei de ler um interessante artigo sobre a Zara, em que é colocado seu modelo de negócio que cada vez mais faz do comprador o “estilista” da marca. Traduzindo: de acordo com a aceitação ou não de determinados produtos, tecidos, formas, detalhes etc., o direcionamento das coleções vai sendo corrigido a fim de dar conta dos desejos de quem compra.

É um modelo de negócio vencedor, senão não teria tornado seu proprietário, Amâncio Ortega, o terceiro homem mais rico do mundo, segundo a revista Forbes.

No entanto, tudo tem seu preço: a partir do momento que damos ao consumidor somente o que ele quer, isto é, algo que está inserido dentro dos padrões e expectativas “normais”, acabamos fazendo sempre o mesmo. Em modelos administrativos, é chamando de buyer driven, isto é, um produto que é construído a partir das demandas do consumidor. Bom, não?

Para mim, nem tanto.

Qual o momento que se propõe o novo, a inovação? Qual o momento do risco, palavra tão temida pela maioria dos empresários? Ao entregarmos somente as expectativas, deixamos de surpreender, positiva ou negativamente (eu sei), mas surpreender!

Qual seria o papel do criador senão trazer o novo? Qual seria o papel do criador senão o de criar tensões para possivelmente chegar ao rompimento? E o novo pode ou não ser aceito, pode ou não ser acatado. Pode ou não dar certo. Poderá ser criticado, rejeitado, desprezado; mas faz parte do ofício.

A despeito das questões de mercado, com marcas com propostas mais ou menos comerciais, ou mais ou menos autorais, o que sinto atualmente é uma enorme falta do novo, de algo que tenha uma real identidade (e não somente burlescas construções de branding) e que justifique o trabalho de tantos e tantos estilistas e designers.

Bem que Diana Vreeland já dizia: “Dê a eles (consumidores) algo que eles sequer imaginaram existir”.

Parece que o mercado, pela maneira que funciona atualmente, não está mais interessado nisto.





sábado, 17 de maio de 2014

A função da moda é tornar-se démodé

Desde que surge, a moda contraria a tradição e propõe que o novo é sempre melhor que o que existe o que o torna velho, melhor dizendo obsoleto.

Antes havia a busca das referências nas elites, que logo que imitadas, mudavam seus estilos e costumes para poderem se diferenciar daqueles que os imitavam. Parecidos, só com seus pares e semelhantes.
Imitar e diferenciar; este é o movimento da moda.

Com o passar do tempo, o sistema de moda foi se modificando, a “ditadura da moda” foi tomando novos contornos e uma suposta autonomia foi dada ao sujeito que passou a ser chamado de consumidor. Os meios de consumo evoluíram e foram surgindo mais e mais segmentações de mercado, o que propiciou que as referências deixassem de ser só das elites. Os sujeitos/consumidores passaram a ser observados em grupos e seus hábitos e costumes passaram a ser analisados a fim de atender melhor suas demandas.

Desta forma, cria-se a possibilidade de uma maior expressão individual, já que qualquer um pode construir sua imagem, bem diferente dos tempos em que estar na moda era adotar rígidas regras. Saia três dedos acima dos joelhos, calça de boca larga, e assim por diante. Quem poderia imaginar que houve um tempo que o que era moda era uma imposição e que todos que queriam estar up to date deveriam adotar seus dogmas? Em tempos de saia longa, a mini era esquecida...

Hoje olha-se um desfile e tenta-se descobrir ao menos algumas tendências, isto é, o que ocorre em maior número (afinal, é uma questão estatística). Há de tudo. Para todos.

Mas uma coisa não muda: mais rápida ou menos rapidamente, a função da moda é tornar-se démodé.


sábado, 12 de abril de 2014

Sábias palavras

Nunca fui muito preocupada com esta questão de me produzir demais, de pensar demais para me vestir. Acho isto um suplício diário da condição feminina. Sou eminentemente básica, o que facilita bastante o processo. Praticamente não uso estampas e peças com muita informação de moda, isto é, de tendências. Gosto da frase de Chanel que dizia que “Elegance is refusal”.
Refusal of what, anyway?
A Moda veio na contramão da Tradição, e afirma que o novo é sempre melhor. Faz acreditarmos que o casaco da estação passada tem alguma coisa que o denuncia que é passado, ultrapassado.
Por que não pensar um pouco mais e entender as palavras de mademoiselle como uma ode à elegância, ou melhor, ao bom senso? Entender que gostar de se vestir bem nada tem a ver com adição aos modismos ou ao consumismo desenfreado.
Recusar-se a comprar o que nos é dito como itens "must-have". Estar elegante - por extensão estar bem - não é estar em conformidade com os ditames alheios; especialmente quando o objetivo principal é vender algo, e não ajudá-lo a ser mais elegante, mais atraente, ou mais seguro.
Recusar-se a aceitar o senso comum de que você sempre precisa de roupas novas, não importando que você já tenha peças suficientes, ou que você não precise (ou possa) gastar mais dinheiro. Ou que o meio ambiente já esteja nos seus limites devido ao consumo irrestrito, irresponsável e sem planejamento.
Recusar-se a ser mais uma vítima da "cor do ano", ou daquela afirmação de que a cor X é o novo preto, por exemplo.  Ou, então, se recusar a acreditar que você tem que ter um arco-íris inteiro em seu guarda-roupa para não ser monótono ou chato.
Recusar-se, enfim, a engolir o que é dito por um exército de “experts” (cujas opiniões muitas vezes divergem) e entender que a Moda se desenvolveu de forma mais consistente em países que dão valor à cultura. E, tal qual expressão de cultura, a expressão de nossa identidade deve vir de uma construção de dados e informações que formarão nosso conhecimento que, então, poderá se transformar em algo interessante.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ser, ter, parecer ter e aparecer

Quando vejo uma bolsa de uma marca famosa, dessas que hoje parecem trazer significados ao seu dono, cheias de logomarcas e identificações, fico a pensar: por que ser tão evidente? Por que ser tão escancaradamente ostentatória?

Se vejo uma pessoa descendo de um ônibus com esta bolsa, o primeiro pensamento que passa pela cabeça é: certamente é fake! Já se sai uma pessoa de um carrão, o pensamento é justamente o oposto: certamente é original!

Por quê? Não é um preconceito?

Certamente, mas onde estaria o luxo e a exclusividade que este objeto deveria significar, se ele suscita tantas dúvidas? Onde está o reconhecimento dos significados, dos códigos que ele deveria possuir? O luxo é tão popular, tão cheio de mensagens estranhas?

“Como alguém pode achar que é um luxo ter a mesma bolsa que outras três pessoas e ainda precisar entrar em lista de espera para conseguir uma?” Este questionamento da inglesa Anya Hindmarch caiu como uma luva nos meus pensamentos e faz me lembrar de como o consumo ostentatório parece cada vez mais mover aqueles que precisam (mais do que a maioria?) da aprovação alheia e da afirmação do seu poder aquisitivo e de seu status.

Este mentalidade foi resultado de um caminho que foi sendo sedimentado pelas mudanças de perfil das bases de distinção e notoriedade. Antes, as pessoas se distinguiam através do ser: do que eram e do que significavam dentro da sociedade. O respeito e a autoestima eram obtidos pela valorização do ser. Com o passar do tempo, as pessoas começaram a se destacar pelo que tinham - seus bens. Os valores materiais passaram a ditar a importância do sujeito e a vaidade se voltou para o ter e, desta forma, o ser começou a minguar.

O externo suplantou o interno e o conteúdo deixou de ter tanta importância.

Ainda neste percurso, parecer ter também foi um passo adiante e aqueles que não tinham, por exemplo, poderiam até se endividar a fim de conquistar seus troféus, isto é, itens de consumo que “revelassem” sua riqueza e status social.

Percorrendo este trajeto de modificação do perfil e da mentalidade das pessoas, desembocamos numa época em que aparecer, mais do que parecer ser, parece ser a regra. As pessoas tornam-se escravas de suas imagens e de sua aparência, evidenciando um vazio e uma superficialidade que faz de todos um grande blefe.


Blefes que carregam bolsas cheias de logos e vazias de conteúdo.